Francisco Maia & Associados
   

Até que a morte os separe

A atual crise econômica mundial tem frequentado as conversas ao redor do mundo, e já são conhecidos diversos fatos relacionados aos últimos acontecimentos, muitos deles trágicos, noticiando casos de pessoas que deram cabo à própria vida em função de perdas milionárias no mercado financeiro.

No que se refere ao mercado imobiliário, já se tornaram comuns as cenas de retomada de imóveis hipotecados, que colocaram na rua milhares de famílias, especialmente nos Estados Unidos, entretanto, na Itália um curioso movimento de vendas tem apresentado expansão em meio à crise econômica que se agrava.

Trata-se de um fenômeno que atinge os italianos mais velhos, abatidos pela pior recessão ao longo dos últimos 30 anos, que estão sendo forçados a vender suas casas com desconto, sendo condição de que o comprador somente adquira a posse do imóvel após o falecimento do vendedor.

Um apartamento no centro de Roma, por exemplo, com sessenta metros quadrados e um quarto, cujo valor de mercado é da ordem de € 250 mil, pode ser encontrado, nessas condições com um desconto de 20,00%, e dificilmente se encontra um negócio melhor na capital romana.

Trata-se de uma pechincha, uma vez que basta “esperar um pouco” para ocupar o imóvel, o que pode ser deduzido por uma simples análise da documentação, onde aparece, em letras pequenas e entre parêntesis, a idade do proprietário do imóvel.

Esse tipo de transação é denominada “venda nua”, significando aquela situação em que o vendedor deixa de ser proprietário do imóvel, mas mantém sua posse, através do usufruto vitalício, existindo também na França, onde é conhecida como “em viager” (para toda a vida), cujo comprador paga uma prestação mensal enquanto o proprietário residir no local, e quando este falecer, o imóvel é transferido para aquele que fez os pagamentos.

Embora na Itália essa forma de aquisição imobiliária represente apenas 5,0% do total das vendas, seu crescimento em meio à crise se mostra expressivo, tendo ocorrido um acréscimo de mais de 120,00% entre os anos de 2000 e 2008, em decorrência do envelhecimento conjugado ao empobrecimento da população.

Além disso, as estatísticas oficiais demonstram que, dentre os italianos com mais de 65 anos, 85,00 % são donos de suas próprias casas, indicando que são ricos em imóveis e pobres em dinheiro, haja vista que sua renda é 25,00 % menor que a dos franceses.

Nessa operação o risco envolvido é a potencial longevidade do vendedor, como em um caso iniciado em 1965, quando um advogado francês, então com 47 anos, adquiriu um imóvel de uma senhora de 90 anos, certo de que o negócio se concretizaria plenamente dentro de poucos anos, entretanto, ela viveu até os 122 anos, chegando a ser a mulher mais velha do mundo, quando faleceu em 1997, mas infelizmente, o desafortunado comprador havia morrido dois anos antes.

 

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